segunda-feira, maio 25, 2026
Também eu
O banana ficou ali especado, indiferente, olhar perdido, boné enfiado na cabeça. Ficou e deixou-se ficar, quedo e sentado, enquanto a mulher tentava lidar com a birra interminável do miúdo.
Irritou-me a pusilanimidade, quis reagir à fruta, apeteceu-me bater-lhe. Afinal de contas, é o oposto do se deve fazer, certo? Há que tentar, procurar solução, ir à luta. É o que se deve fazer, certo?
Estava assim bem entretido há já um bom bocado, alimentando a raiva e a altivez, quando me ocorreu. Não sei de onde me chegou a claridade, mas chegou óbvia: cada um tem as suas. É uma questão de área, de tema, de profissão, de genética, de carácter, de educação, de acaso.
Também eu deixo passar, me quero esconder,
rejeito a responsabilidade. Também eu enfio o barrete, também eu enterro o boné
infantil e ridículo na cabeça, e me torno nessa textura mole que tanto
detesto e nunca me ocorreria comer como sobremesa ou lanche.